Teófilo Braga e Airão S. João

O escritor e etnógrafo Teófilo Braga chegou a passar longas temporadas na freguesia de São João de Airão, que aqui possuiu a Quinta da Pereira. Dessa sua experiência resultou a recolha de várias lendas, histórias e narrativas populares que fizeram as delícias de muitas gerações. Aqui se recordam algumas das muitas que o escritor deixou para a posteridade.

Lendas de Airão, por Teófilo Braga:

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A RAPOSA E O LOBO

A raposa e o lobo mataram dois carneiros e fugiram. Depois que se acharam seguros, deitaram-se a comer, mas só puderam comer um, e o outro ficou inteiro. Diz a raposa:– Compadre, é melhor enterrarmos este carneiro e vimos cá amanhã comê-lo juntos.

Vai o lobo e diz-lhe:

– Mas nem eu nem tu temos faro, como é que o havemos de tornar a achar?

– Deixa-se-lhe o rabo de fora.

Assim se fez. No dia seguinte apresenta-se o lobo e diz:

– Comadre, vamos comer o carneiro?

– Hoje não posso; tenho de ir ser madrinha de um cachorrinho

O lobo fiou-se, mas a raposa foi ao lugar onde estava enterrado o carneiro e comeu um grande pedaço. No outro dia toma o lobo a perguntar-lhe:

– Que nome puseste ao teu afilhado?

– Comecei-te.

Exclama o lobo:

– Que nome! Vamos comer o carneiro?

– Ai, compadre (disse-lhe a raposa), hoje também não pode ser; estou convidada para ir ser madrinha.

O lobo fiou-se; a raposa tornou a ir comer sozinha. Ao outro dia vem o lobo:

– Que nome deste ao teu afilhado?

– Meei-te.

– Que nome! (replica o lobo). Vamos comer o carneiro?

A raposa tornou a escusar-se com outro baptizado, e foi acabar de comer o carneiro. O lobo vem:

– Como se chama o teu afilhado?

– Acabei-te.

– Vamos comer o carneiro?

Foram e chegaram ao sítio; assim que viram o rabo, disse a raposa:

– Puxa com força, compadre.

O lobo puxou, e caiu de pernas para o ar; a raposa safou-se.

(Airão S. João)

(topo)

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FÁBULA DA RAPOSA E DO MOCHO

Uma raposa passou por um souto e sentiu piar um mocho; disse ela para si:

– Ceia já eu tenho.

E foi muito sorrateira trepando pelo castanheiro em que estava piando o mocho, e filou-o.

O mocho conheceu a sorte que o esperava, e viu que não podia livrar-se da raposa sem ser por ardil. Disse então para ela:

– O raposa, não me comas assim como qualquer frango desses que furtas pelos galinheiros; tu também sabes andar à caça de altenaria, e é preciso que todos o saibam. Agora que me vais comer, grita bem alto:

«Mocho comi!»

A raposa levada por aquela vaidade, gritou:

– Mocho comi!

– A outro sim, que nenja a mim! replicou-lhe o mocho caindo-lhe de entre os dentes e voando pelo ar fora, livre do perigo.

(Airão S. João)

(topo)

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A RAPOSA NO GALINHEIRO

De uma vez uma raposa apanhou um buraquinho num galinheiro, entrou para dentro fazendo-se muito esguia, e depois que se viu lá, comeu galinhas à farta. Quando foi para sair estava com a barriga muito cheia, e por mais que fez não pôde passar pelo buraco. Viu-se perdida, porque já vinha amanhecendo. Por fim teve uma lembrança: Fingiu-se morta.

De manhã veio o lavrador e viu-a:

– Cá está ela. E que estrago que me fez!

Vai para lhe dar pancadas e matá-la, mas vê-a hirta, com a língua atravessada nos dentes e os olhos envidraçados:

– Poupaste-me o trabalho; morreste arrebentada. Foi bom.

E pegando-lhe pelas pernas atira-a para o meio da horta para a enterrar. A raposa assim que se viu fora do galinheiro, pernas para que te quero! botou a fugir pelos campos fora e fez do rabo bandeira. O lavrador deu a cardada ao dianho, e jurou que nunca mais se fiaria em raposas.

(Airão S. João)

(topo)

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A RAPOSA E O GALO

Uma raposa viu um galo pousado em cima de um palheiro, e não podendo agarrá-lo começou a falar-lhe cá de baixo:

– Ó galo, tu não sabes? Veio agora uma ordem para todos os animais serem amigos uns dos outros. Nós cá as raposas já não temos guerra com os cães, estamos amigos; e tu podes-te descer cá para baixo, que eu já te não faço mal.

Estava nisto, quando vem uma matilha de cães, e farejando a raposa, botam-se atrás dela. A raposa ia sendo agarrada, mas fugiu o mais que podia. O galo de cima do palheiro gritava-lhe:

– Mostra-lhe a ordem! Mostra-lhe a ordem!

A raposa, ainda de longe: lhe respondia:

– Não tenho vagar! Não tenho vagar.

E fugia por entre uns tremoçais, que já estavam secos, que faziam uma grande bulha, e ela dizia:

– Ai, que rica festa! E logo hoje, que vou com tanta pressa.

(Airão S. João)

(topo)

 

 

 


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